Pequenos Limiares

RPG MONK5

O barulho do aríete chocando-se contra as maciças portas de madeira preencheu o interior do monastério. Atrás das paredes de pedra daquele antigo reduto de paz, uma horda de inimigos se amontoava, juntando esforços para saquear o templo. Era um exército de criaturas nefastas, composto de goblins, orcs e trolls. Desorganizados, mas em grande número.

Seu ataque pegou as guarnições do vilarejo desprevenidas, aniquilando-as sem nenhum esforço. Todas as aves que foram enviadas para pedir reforços foram abatidas, o muro de madeira fora destruído, e as criaturas invadiram o povoado, assassinando e pilhando à vontade. Nada daquele lugar resistiu ao ataque, nada além do velho monastério de São Zimério.

Dentro de seu templo, os monges reuniam-se no salão principal, o lugar destinado à celebração das missas e recepção dos fiéis. Aglomerando-se no espaço apertado, cerca de cinquenta monges aguardavam pela palavra do Abade Superior. Vestiam hábitos surrados, criados a partir de panos de baixa qualidade, que se adequavam aos pobres servidores da Fé. Com seus capuzes pontiagudos e mangas largas, as vestimentas poderiam parecer ridículas em qualquer outra região do globo. Mas ali, naquela parte do reino, era um sinal de respeito. Vastamente conhecida por seus trabalhos de caridade, a Ordem da Luz Infinda mantinha-se entre as instituições mais confiadas pela população comum. Apesar de aceitar apenas poucos membros, eram sempre lembrados como a ordem religiosa mais antiga daquela pequena nação, contanto mil e trezentos anos de tradição.

Entre os homens que esperavam pela chegada do Abade encontrava-se Augir, um jovem acólito que esperava ser iniciado na Ordem no começo do ano seguinte. E de todos eles, Augir parecia ser o único realmente impaciente. Cada golpe à porta do mosteiro era para ele como um murro no peito, como se as criaturas fossem entrar a qualquer momento. Mas, apesar dos fortes ataques às paredes do templo, seus companheiros de ofício pareciam absolutamente serenos, como se tudo aquilo não passasse de um contratempo banal.

Existiam muitas histórias sobre as paredes daquele monastério e sobre a devoção dos monges da Ordem da Luz Infinda. Diz-se que as pedras daquelas paredes já haviam resistido a dias de cerco, enquanto os homens dentro delas sobreviviam à base de água e oração. Monges já afastaram exércitos inteiros com suas preces cantadas, e as forças da escuridão foram mais de uma vez derrotadas pela força de sua fé.

Mas, a um acólito jovem e ansioso, que jamais havia testemunhado a força dos deuses com os próprios olhos, evitar os fantasmas da dúvida e do medo parecia impossível. Atrás deles, separados por dois metros de paredes de pedra, estavam centenas e mais centenas de inimigos de tudo aquilo que eles consideravam sagrado. Tentando dissuadir seu medo, Augir lutou para concentrar-se em uma prece silenciosa, pedindo ao Vigia e à Poeta para que os protegessem dos servos da escuridão.

Quando o Abade Superior finalmente chegou, Augir já havia desistido de focar sua atenção em qualquer coisa. Mas quando aquele ancião centenário caminhou lentamente em frente ao altar, permitiu-se um suspiro esperançoso. Atrás do grão-mestre da Ordem da Luz Infinda, uma grande estátua representando a Poeta erguia-se majestosa. Apesar de seus traços pouco detalhados e seu mármore de baixa qualidade, a estátua ostentava uma beleza quase irreal. Em suas mãos, carregava um magnífico bandolim de cordas prateadas, que refletiam a luz quando tocadas pelo sol. Era, sem sombra de dúvida, a mais bela representação da deusa da estratégia e da inteligência que Augir já tinha visto, um maravilhoso tributo à senhora dos bardos.

— Os irmãos devem me perdoar pela demora — começou o grão-mestre — mas sabem como são as entranhas de um velho…

A piada gerou risos leves entre os monges, que riam mais por carinho do que por humor. As roupas do grão-mestre eram idênticas às de seus irmãos, com exceção das cores: eram brancas, com seu interior forrado de um tom profundo de azul.

— Comecemos nossos trabalhos, então — voltou a dizer, sorrindo. — Irmão Augustus… Cântico dos Pequenos Limiares.

Acenando com a cabeça, Irmão Augustus deu início ao cântico. Os outros monges rapidamente o seguiram em coro. Tomando uma vela em suas mãos e protegendo a chama com cuidado paterno, o Abade Superior dirigiu-se aos pés da deusa atrás de si.

Augir não pôde deixar de estranhar aquela decisão de prece. Estava entre as orações mais simples que se ensinavam aos monges, algo que se rezava todos os dias pelas manhãs para celebrar pequenos acontecimentos frequentes como um novo sol, um novo dia de trabalho, um novo pão sobre a mesa. Alguns a rezavam antes de ler um livro, outros, antes de uma viagem pequena. Era, de uma forma geral, algo que se usava para festejar as banalidades da vida.

Mas Augir não se atreveria a discutir com o grão-mestre de sua ordem. Os membros mais altos da hierarquia sacerdotal poderiam ser dotados de uma sensibilidade e uma conexão com o Divino que os jovens acólitos seriam incapazes de compreender. Engolindo suas dúvidas, juntou-se ao coro. Sua voz, unida à de seus irmãos, entoou as encíclicas antigas. As vozes treinadas dos monges mais velhos pareciam mais graves e mais belas, e alguns conseguiam até mesmo cantar em duas frequências diferentes ao mesmo tempo. Rezavam sorrindo, olhando-se nos olhos, confiando-se uns nos outros com seus corpos e almas. Atrás deles, o aríete continuava a ressoar na escuridão. Mas Augir não podia dizer que não estava em paz.

Aos poucos, o jovem acólito permitiu-se entrar em um estado de transe. Apesar de a preocupação não abandoná-lo por completo em nenhum momento, sentiu-se desviar de seus problemas, lentamente se afastando das forças que lhe queriam fazer mal. Abaixo de si, reparou que as frestas entre os ladrilhos que compunham o chão do monastério brilhavam levemente, como estrelas distantes sob seus pés. Em sua visão periférica, a imagem da deusa parecia irradiar uma aura de segurança. Seus futuros irmãos, homens pelos quais Augir nutria um profundo respeito, pareciam elevar seus espíritos enquanto entoavam sua canção de fé.

De repente, Augir ouviu um som diferente de tudo o que já havia escutado na vida. Era um timbre profundo como um órgão e, ao mesmo tempo, sutil como um farfalhar de folhas. Carregava uma profunda sensação de sabedoria e espiritualidade, como se, através dele, os deuses estivessem falando aos seus servos. A voz do Abade Superior havia se juntado ao coro.

Agora, movidos pela vibração de sua música, os monges estavam unindo as mãos em corrente, fechando-se em um círculo sagrado inquebrantável. Dentro dele, cercado pelos homens que Augir um dia teria orgulho em chamar de irmãos, o acólito experimentou de uma sensação de segurança como nunca antes na vida, como se seu hábito fosse uma armadura impenetrável, invulnerável a todos os males do mundo.

Abaixo de si, percebeu que os pontos luminosos começavam a formar traços, criando formas geométricas emolduradas por runas mágicas e símbolos sagrados. Sentiu seus pés deixarem lentamente o chão, deslizando para o ar etéreo do templo ancião. Seus ouvidos estavam cheios com as vozes de santos, suas mãos agarrando-se às mãos de homens sábios que não podiam morrer, sua cabeça andando lentamente em direção ao céu eterno. E naquele momento viu-se livre de todo medo, de toda angústia do ser inferior, do sofrimento e do desejo, da raiva e da vontade de fugir.

Atrás deles, a porta se abriu…

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Serpentes na Escuridão – Parte 2

NASSAR3

Os portões da cidade abriram-se num solavanco. Os soldados empurravam as maciças portas de carvalho, que se moviam em um ritmo vagaroso. Do lado de fora, um homem esperava ao lado de dois cavalos grandes e fortes. Sem dúvida, montarias valiosas. O homem, porém, não tinha a aparência de um grande guerreiro. Vestia-se com as roupas típicas das terras de areia: o turbante amarelado e a armadura leve que sacrificava em proteção para compensar em agilidade. Aos olhos de um guerreiro nortenho, aquele homem poderia parecer incompleto. No entanto, séculos de tradição em batalhas ágeis sob o sol escaldante davam aos homens de Nassar a confiança necessária para enfrentar qualquer oponente.

Quando a fresta entre os portões mostrou-se grande o suficiente, um homem diminuto cambaleou para fora da cidade. Andando a passos rápidos, Gimp não pôde deixar de se sentir um pouco inseguro ao ver o guerreiro que o acompanharia nesta importante missão. Parecia magro demais, vulnerável demais. Algo na silhueta daquele homem tornava-o tão esguio quanto sua lança, e três vezes mais fraco. Ao se aproximar, porém, reparou que a lâmina daquela arma parecia cortar até mesmo a luz do luar. Talvez não tivesse sido uma escolha tão ruim, afinal de contas.

O ar noturno parecia estranhamente silencioso. Apenas o som do vento revolvendo a areia podia ser ouvido, ocasionalmente atrapalhado pelo pio distante de uma ave ou o uivo fraco de um coiote. Mas quando o anão se aproximou, o guerreiro decidiu romper esta aura de quietude:

— Boa noite, meu senhor. Eu me chamo Qohor, e sou o líder da guarda real da cidade de Khajir. Meu suserano me instruiu para que o seguisse e ajudasse em sua jornada para a fortaleza de Qanat. Sou seu humilde servo.

— Agradeço sua gentileza, mas não tenho utilidade para servos. Se você deseja ajudar, no entanto, pode me ajudar a montar no cavalo — respondeu o druida.

Mostrando um sorriso complacente, o guerreiro rapidamente se dispôs a ajudar Gimp com sua montaria. Qualquer homem mais orgulhoso teria se recusado, praguejado e cuspido no chão. Aquele, porém, parecia ter um espírito simples e servil, disposto a ajudar seus superiores nos mais simples — e talvez humilhantes — serviços diários. Homens como ele eram definitivamente inaptos às maquinações políticas da corte, e costumavam se sentir muito mais confortáveis nos pátios de treinamento. Gimp estava começando a se sentir cada vez mais confortável em sua companhia…

Quando subiu em seu cavalo, sentiu o animal fraquejar sob seu peso monumental. Dificilmente teria escolhido aquele tipo de montaria, mas não tinha escolha. Precisava de uma montaria rápida, que pudesse levá-lo até a fortaleza e trazê-lo de volta no menor tempo possível. Para esta tarefa, sua mula de costume estava longe de ser adequada. Apesar de resistente, era um animal muito devagar. E não havia tempo.

O cavalo, porém, parecia não ter sido a melhor das escolhas. Por um momento, Gimp pensou que aquele animal poderia não aguentar seu peso. O druida estava familiarizado com a natureza dos equinos e de muitos outros animais de carga, pois era um andarilho incansável e um velho amigo da natureza. Os animais, porém, tendiam a mudar de acordo com a posição geográfica, adaptando-se às necessidades de seus mestres. Naquela terra de guerreiros leves e roupas soltas, onde nenhum inverno era rigoroso e nenhum verão era menos que letal, parecia improvável que um cavalo tivesse a resistência necessária para carregar um anão de cento e vinte quilos. Sentindo suas preocupações, Qohor se manifestou:

— Não se preocupe, meu senhor. Sua montaria é mais resistente que aparenta. O senhor se impressionaria com os feitos deste animal.

— Espero que você esteja certo, meu caro. A vida do príncipe depende disso…

Num movimento rápido, Qohor subiu no dorso de sua montaria.

— Então precisamos cavalgar se esperamos salvar o herdeiro de Khajir. Siga-me, meu senhor. A fortaleza é distante, e não temos um segundo a perder.

Apertando os calcanhares contra o flanco de seu cavalo, Qohor colocou-se em movimento. Com alguma dificuldade para controlar sua montaria, Gimp o seguiu como pôde. Seguiram num ritmo acelerado, a meio-trote, atravessando a paisagem noturna das terras e areia. Vigiando-os com seus milhares de olhos luminosos, o céu estrelado apontava o caminho de sua jornada. A lua cheia cobria a superfície da Terra com sua luz pálida, revelando os detalhes do relevo desértico e quebrando o sigilo das serpentes que se escondiam nas sombras.

A cada hora de marcha que se passava, ia ficando mais claro para Gimp que Nassar era uma terra inóspita. Coberta por dunas de areia, rochas avermelhadas e planícies desertas, parecia resistir bravamente à vida que tentava se instalar ali. As poucas plantas que conseguiam firmar as raízes naquela terra dura pareciam amarguradas e retorcidas, como se as privações daquele lugar hostil tivessem moldado suas folhas em espinhos cruéis. Rastejando pela terra, as únicas criaturas que o druida viu foram as serpentes peçonhentas e os lagartos-de-fogo que refletiam o luar com suas escamas amareladas.

Ao longe, rochas gigantescas se erguiam sobre a paisagem nassarena. Durante o dia, atingiam um tom profundo de laranja avermelhado. Sob a luz da lua, porém, eram azuis. Suas formas fantasmagóricas, esculpidas pacientemente pelo vento durante os longos anos de sua existência, pareciam ser as únicas coisas que se destacavam naquele enorme horizonte sem árvores.

Havia, porém, um elemento na paisagem de Nassar que superava o de qualquer outro lugar no mundo: o céu. Abraçando por completo os limites do horizonte, o firmamento estrelado era, ali, absolutamente mais belo do que em qualquer lugar que Gimp já visitara. As estrelas salpicavam o chão celeste de ponta a ponta, preenchendo-o quase por completo, enquanto fumaças prateadas desenhavam-se na negritude atrás, preenchendo de vida aquilo que parecia ser o outro lado da existência. Ali, era com tanta clareza que se podia admirar o milagre da criação, que era como se os deuses estivessem nus para os olhos dos mortais, e nenhum mistério parecia tão grande que não pudesse ser revelado. Bastava, porém, um segundo de reflexão para se perceber que a verdade era exatamente o contrário: nem que todos os sábios que já viveram sobre a terra se pusessem a pensar ao mesmo tempo, conseguiriam eles desvendar uma fração do mistério que era a criação daquele céu inverossímil.

Foi perdido em pensamentos sobre a natureza divina que Gimp avistou, ao longe, dois picos se erguendo no horizonte. Logo entendeu que se tratava o cânion, e que não demoraria muito para alcançarem seu destino. Por um instante, permitiu-se sentir alívio. Foi quando avistou algo a mais na paisagem. A quase duzentos metros de onde estava, escondidas sob a sombra de uma árvore seca, havia diminutas silhuetas. Daquela distância era impossível determinar o que eram, mas Gimp tinha pouca dúvida do que poderia ser.

— Qohor — chamou, enquanto pegava seu cajado e apontava para a árvore seca. — Talvez seja melhor você pegar a sua lança…

O guerreiro percebeu as criaturas imediatamente. Puxando sua lança das costas, atiçou seu cavalo e acelerou. Gimp fez o mesmo, embora sua montaria não conseguisse seguir na mesma velocidade que a do lanceiro nassareno.

As criaturas perceberam que foram detectadas. Perdendo o elemento surpresa, saíram da proteção da sombra. Quando suas formas se revelaram com maior clareza, Gimp pôde perceber que eram cinco. Estavam montados em criaturas grandes que se assemelhavam a javalis, e davam a volta ao redor dele e de seu parceiro para atacar pelos flancos. Goblins eram muito covardes para uma investida frente a frente…

Mirando seu cajado na direção das criaturas que se aproximavam, o druida se concentrou da melhor forma que pôde. Num breve momento de êxtase, sentiu sua energia sendo canalizada pelo cajado, que cuspiu uma magia amarelada no ar noturno. A pequena bola de energia atravessou aquilo que era agora o campo de batalha, deixando pequenas fagulhas avermelhadas por onde passava. De repente, atingiu algo. Ouviu-se um estrondo. Não muito longe, Gimp pôde ver uma nuvem de poeira se erguer sobre a planície desolada. Por um instante, sentiu alívio. Foi quando viu os goblins atravessarem a nuvem de poeira, cuspindo gargalhadas estridentes. Errara.

Os cavalos agora corriam a toda velocidade. O grupo de criaturas começava a circundar Gimp e seu companheiro, assumindo posições seguras nos flancos. Um dos goblins, porém, permaneceu distante. O anão perguntava-se o que aquela criatura estava tramando… Quando uma flecha cortou o ar em sua direção.

O druida desviou por poucos centímetros, movendo seu corpo para a direita. A flecha passara veloz ao lado de sua cabeça, e Gimp pôde ver seu metal enferrujado e mal trabalhado por um instante fugaz. O movimento brusco o fez perder um pouco o equilíbrio, apenas o suficiente para que o goblin à sua direita tentasse um ataque com sua espada retorcida. Estendeu o braço deformado num golpe veloz, mas não estava perto o suficiente. O corte errou o anão por vários centímetros. Percebendo seu erro e praguejando frustrações agudas, o goblin tomou as rédeas de sua criatura e se aproximou da montaria do anão. Mas era tarde, pois Gimp já recuperara o equilíbrio e esperava por esta manobra desesperada. Quando o goblin se aproximou de seu cavalo sobre o suíno amaldiçoado, Gimp desferiu um golpe certeiro com o cajado na cabeça da criatura, que mesmo protegida por um capacete tosco ficou atordoada pela força do choque. Foi tudo o que Gimp precisou. Segurando as rédeas de seu cavalo com a mão esquerda e o cajado com a direita, atirou mais uma magia sobre o goblin que o emparelhava. Em um instante, a criatura e sua montaria se incendiaram com uma chama azulada que os consumia: a bola de fogo os atingira em cheio.

Naquele momento, goblin e porco soltaram um grito agudo de dor profunda que preencheu o ar noturno. Desesperada para apagar o fogo, a besta perdeu o controle sobre si mesma e caiu rolando sobre o campo de batalha, esmagando seu cavaleiro e silenciando seus gritos.

Preparando-se para o próximo ataque, Gimp armou seu cajado na direção da outra criatura que se aproximava. Foi quando se lembrou de seu parceiro. Quando Gimp virou-se para a esquerda, viu que dois goblins se aproximavam de Qohor pelo mesmo lado. O guerreiro esperou o instante certo, e quando a criatura mais próxima chegou perto o suficiente, girou sua lança. O golpe foi desferido com uma precisão cirúrgica, acertando o goblin em cheio na cabeça. A lâmina de sua lança cortou através do capacete da criatura, dividindo sua cabeça horizontalmente. Sobre o pescoço grotesco restara apenas a mandíbula inferior, que se contorcia freneticamente enquanto os membros do goblin se retorciam num último espasmo de vida.

Quando a criatura entregou-se aos braços da morte, seu corpo deslizou do dorso do javali e caiu rolando na planície deserta. Sua montaria, porém, permaneceu correndo ao lado do cavalo de Qohor, enquanto o goblin à esquerda desta praguejava pela morte de seu companheiro.

Ao perceber que seu amigo não corria perigo, Gimp virou-se para enfrentar o goblin que se aproximava à sua direita. Mas era tarde demais. A criatura aproveitara-se do seu momento de distração para atirar sua montaria com toda a força contra a de Gimp. Quando o anão percebeu já era tarde demais para tentar uma manobra evasiva.

O javali atingiu seu cavalo com força, as presas longas raspando contra o couro do animal, que ficou imediatamente assustado com seu cheiro de sangue. Não conseguiu perfurá-lo, mas o impacto foi o suficiente para atirar Gimp e sua montaria para a esquerda. O que se seguiu foi um efeito dominó. O javali empurrou Gimp, que empurrou Qohor, que se aproximou ainda mais do javali desgovernado cujo montador acabara de assassinar.

Aproveitando-se desta proximidade e do desequilíbrio de seu inimigo, o goblin mais à esquerda saltou de sua montaria, pousando sobre o dorso do javali que acabara de se chocar contra o cavalo de Qohor.

Equilibrando-se num instante, a criatura desferiu uma dúzia de golpes rápidos contra o guerreiro nassareno. Corte após corte, seus golpes foram rapidamente bloqueados pela lança do cavaleiro, que lutava para se equilibrar sobre sua montaria enquanto Gimp o prensava à direita.

Quando finalmente conseguiu uma brecha nos ataques de seu atacante, Qohor desferiu uma estocada rápida no focinho de seu javali. Fora o suficiente. O suíno começou a gritar de dor, chacoalhando desesperadamente a cabeça, perdendo o controle sobre si mesmo enquanto corria. Percebendo que não conseguiria manter o controle sobre sua montaria, o goblin a afastou do lanceiro, esperando o momento oportuno para tentar outra investida.

Enquanto isso, Gimp lutava contra o goblin que se pressionava à sua direita. A força do javali da criatura era muito maior do que a do seu cavalo, o que o forçava a se pressionar contra Qohor. Defendendo-se contra os golpes rápidos da criatura, o anão estava quase desistindo de encontrar algum equilíbrio naquela situação. Fazia o possível para bloquear os golpes com o cajado, que criava pequenos escudos mágicos sempre que a espada contorcida e dentada se chocava contra si.

Foi quando o goblin arqueiro, agora cavalgando à frente, finalmente teve coragem de disparar outra flecha. A criatura, que até então parecia estar fugindo da batalha, parecia ter percebido que seus companheiros estavam em vantagem naquele momento. Foi o bastante para que voltasse ao combate.

A flecha negra voou na direção de Gimp, e teria acertado seu peito em cheio se o anão não tivesse conseguido se defender de última hora, colocando o cajado na trajetória da seta. Quando esta se chocou contra o cajado do druida, criou-se um pequeno escudo de luz por uma fração de segundo, e a flecha rodopiou para longe.

Aproveitando esta brecha, o goblin à sua direita acertou sua perna com um corte rápido, rasgando suas vestes e sua carne. Soltando um urro de dor e de raiva, o anão virou-se para a criatura que o atacava, bloqueou seu novo golpe, e contra-atacou, atingindo-o em cheio no peito. Quando seu cajado atingiu a placa de peito do goblin, criou-se uma explosão de ar que o atirou a dois metros de cima do dorso de sua montaria.

Quando o javali se viu fora do controle do goblin, rapidamente se afastou do cavalo de Gimp. Antes que o suíno tivesse a oportunidade de tentar mais uma investida, o anão atirou nele mais uma bola de fogo. A magia o atingiu, as chamas azuladas se espalharam sobre o seu corpo, a criatura se desesperou e finalmente perdeu o controle sobre as próprias patas, caindo aos berros sobre o campo de batalha.

Recuperando seu equilíbrio, Gimp pôde se afastar de Qohor e se concentrar no arqueiro à sua frente, que parecia se preparar para disparar outra flecha.

O goblin à esquerda do lanceiro, porém, parecia estar confiante o bastante para tentar outra investida. Inclinando-se para a direita, tentou jogar sua montaria com toda a força contra o cavalo do nassareno. Mas seu javali ainda estava com muita dor por causa do golpe que recebera, e hesitou alguns instantes.

Foi tudo o que Qohor precisou. Num golpe extremamente veloz, acertou uma estocada contra o pescoço do goblin, que morreu imediatamente. Antes que sua montaria se afastasse, o guerreiro retirou a lança da carne do goblin, apenas para desferir outra estocada no olho do javali. Quando a ponta da lança entrou pelo buraco de seu olho direito, o suíno se pôs a gritar em agonia extrema, balançando a cabeça desesperado e acidentalmente enfiando a lâmina ainda mais no seu próprio crânio.

Vendo que não conseguiria soltá-la da cabeça do javali desgovernado, Qohor simplesmente largou sua lança e se afastou, deixando o suíno à sua morte frenética.

O goblin arqueiro, ao perceber que seus aliados haviam sido derrotados, deixou zunir uma última flecha atrapalhada, que errou o anão e o homem por metros de distância, e se pôs a açoitar sua montaria de maneira perversa, desesperado para deixar o local da batalha.

Quando o javali ferido caiu, Qohor pegou sua lança do cadáver do animal e se pôs em perseguição contra o goblin que fugia. Mas era impossível. A montaria da criatura era muito rápida, e nenhum cavalo seria capaz de emparelhá-la.

Acertando seu cavalo com mais força e mirando seu cajado da melhor maneira que pôde, Gimp tentou um último recurso desesperado. Sentiu a energia sair de suas mãos, escorrendo pelos dedos e para a madeira branca do cajado, correndo através dele até sair na forma de uma flecha vermelha, que saiu brilhando sobre a planície de Nassar. Zunindo pelo ar noturno, a flecha mágica atravessou o campo de batalha… E atingiu o seu alvo. A armadura retorcida e enferrujada do goblin não apresentou sequer resistência contra a magia do druida, que a atravessou de um lado ao outro enquanto a derretia com seu calor infernal. A carne da criatura ficou imediatamente cauterizada, e ela caiu de cima de sua montaria, morta e fumegando.

De repente, Gimp percebeu que a batalha se estendeu por uma distância muito maior do que havia imaginado: estavam na boca do cânion. Engolindo a luz à frente deles, os dois abismos erguiam-se bloqueando o horizonte, formando uma fenda estreita que se estendia até onde os olhos podiam ver. Onde o abismo terminava começava um pequeno vilarejo, aparentemente abandonado há séculos, que devia servir de moradia para os soldados e suas famílias.

— Será um bom lugar para deixar os cavalos. Deixe-os em uma das casas, não queremos que os goblins os encontrem e arranquem suas tripas.

— E se houverem goblins escondidos nas casas? — perguntou Qohor.

— Nós saberíamos. Teriam nos atacado a esta altura. Vá, não temos muito tempo. Só podemos descansar por uma hora antes de seguirmos nosso caminho — disse Gimp desmontando.

— Sim senhor. Acho que aquela casa mais a oeste pode servir como um bom abrigo até… Meu senhor está ferido? O que houve com sua perna? — perguntou Qohor preocupado.

— Isto não é nada, meu caro, não se preocupe. Agora vá, vá! Antes que eles nos encontrem.

Sem fazer mais perguntas, o cavaleiro puxou os cavalos pelas rédeas e se retirou. Sentando-se no chão, Gimp tomou um minuto para analisar sua ferida. Não era muito profunda, e não parecia envenenada. Doía bastante, porém. Goblins costumam usar espadas retorcidas, dentadas, gastas por anos e anos de uso — mas nunca cegas. Num movimento rápido, o anão puxou mais um frasco de sua túnica. Trouxera muitas poções para aquela viagem… Mas talvez não o suficiente. Destampou-o, e, sem parar para pensar, despejou o conteúdo sobre a ferida. Ao entrar em contato com sua carne, o líquido pareceu ferver instantaneamente, e o anão precisou segurar um urro de dor. Mas quando olhou para o ferimento outra vez, percebeu que este parecia bem melhor — quase cicatrizado. Bebeu um gole da mesma poção, se apoiou no cajado e se levantou.

Faltava pouco mais de uma hora para o amanhecer. Seria seguro esperar a luz do dia, pois goblins enxergam melhor à noite e têm medo do sol que queima suas pálidas e deformadas peles.

Esperando por Qohor, Gimp percebeu-se de repente encarando o abismo. Na escuridão que se instalara naquela fenda, algo de muito ruim parecia reinar. Algo que ia além da crueldade dos goblins, do espectro fantasmagórico que a fortaleza parecia emanar… Era como se, de alguma forma, o abismo o encarasse de volta.

Serpentes na Escuridão – Parte 1

Sob a pele calejada de sua mão grosseira, o anão sentiu o garoto arder em febre. Sua pele pálida transparecia as veias enegrecidas, e seu suor denso e fétido empapava as cobertas de linho. Respirava com grande dificuldade, sugando o ar de forma engasgada e desesperada, enquanto balbuciava delírios sobre um mundo tenebroso que existia apenas atrás de seus olhos.

Sem pressa, o curandeiro puxa um frasco de vidro de um dos bolsos de suas vestes. Dentro dele, um óleo branco fluorescia timidamente. Com um cuidado quase paterno, o anão despeja o unguento na boca fraca do rapaz febril. Instantaneamente, o garoto finalmente consegue respirar de forma limpa, como se aquele líquido tivesse livrado seus pulmões de um mal indizível. Mas mesmo com aquele leve sopro de vitalidade, sua situação parecia continuar extremamente crítica.

Pendurada sobre um gancho na parede, uma candeia fraca iluminava o quarto. À cabeceira, uma carta inacabada, uma pena manchada e um tinteiro aberto.

— Ele me estava escrevendo aquela carta — disse o pai. — Foi quando a febre começou.

Mesmo abalado pelo mal de seu filho, Kord Jugerstad, Senhor de Khajir, era uma figura poderosa. Por baixo das vestes rebuscadas do governante de uma cidade próspera, havia o corpo sólido de um soldado de muitas batalhas. Muito antes de assumir o trono da grande cidade, Kord lutara nas hostes de seu pai contra a revolução que viria a destronar o sultão de Nassar, Sha Jahan Al-Hadir. Ao longo dos terríveis anos da guerra, subiu gradativamente os escalões do exército tornando-se general em cinco anos. Dois anos depois, sofreu sua primeira grande derrota na Grande Batalha dos Campos de Lhazar, que lhe custou dois terços de seus homens. Um ano depois disso, a resistência estava derrotada. Apenas um punhado dos Senhores que se opuseram à rebelião foram perdoados pelo novo regime. Seu pai havia sido um deles, pois o novo sultão sabia que o povo de Khajir era orgulhoso demais para se ajoelhar a um novo Senhor. Mas mesmo tendo sua herança de direito assegurada pelos novos governantes do reino, Kord jamais conseguiu perdoá-los pela guerra sem sentido que travaram por poder, e pelas vidas inocentes que se perderam em meio ao caos.

— E ele irá terminá-la, eu prometo — disse o druida. Foram muitos os casos de envenenamento que Gimp curou, mas aquele estava além de tudo o que já havia visto. A carne ao redor da ferida parecia apodrecer diante de seus olhos, enegrecendo mais a cada instante, e, no entanto, resistindo bravamente à toxina que lhe corroia. — Como você disse que ocorreu o ataque?

— Ele e sua caravana voltavam de uma negociação na capital. Foram atacados por um grupo de goblins. Nenhum de seus homens sequer chegou a ser ferido. Mas uma flecha acertou meu filho…

— Entendo. Não mentirei para o senhor. Este veneno está além de tudo o que eu já vi.

— Está dizendo que não conhece o veneno que está matando o meu filho?

— Eu sei exatamente qual o veneno que está cursando pelas veias de seu filho. É veneno de mantícora. Extremamente letal. Mata em minutos.

— Então por que meu filho ainda está vivo? — perguntou o sátrapa de Khajir, começando a se enfurecer.

— Porque este veneno não foi feito para matá-lo. Foi feito para quebrá-lo. Existe alguma coisa a mais nesta toxina, algo tenebroso criado para retardar o seu efeito, torturar o corpo e a alma daquele que for envenenado. Algo misterioso engenhosamente criado apenas para engolir seu filho, para devorar a bondade de seu coração… Seus traços estão em toda parte, espalhados nos detalhes da ferida, no cheiro da carne, na cor do sangue… No entanto, o enigma permanece indecifrável.

— Está me dizendo que não consegue curar o meu filho?

— Estou dizendo que não consigo curá-lo com o que tenho em mãos. Eu preciso encontrar a cura, e não a encontrarei aqui. Eu preciso encontrar o goblin que disparou a flecha.

— Entendo… — disse Kord assumindo uma expressão grave no rosto. — O grupo se dispersou rapidamente. Os guarda-costas de meu filho mataram algumas das criaturas, quando a flecha rasgou o ar e o acertou no ombro. Os monstros sobreviventes desapareceram por entre as dunas.

— Você não tem a menor ideia de onde eles podem ter vindo?

— Temos recebido muitos relatos de encontros com goblins perto das ruínas de Qanat. Uma fortaleza abandonada construída em um cânion próximo daqui. Posso organizar uma tropa, invadiremos o local!

— Não. Uma tropa grande apenas chamará atenção. Eles terão fugido com o antídoto muito antes de tomarmos a fortaleza. Precisamos pegá-los de surpresa. Eu irei sozinho. Não será a primeira vez que lido com este tipo de criatura. Goblins não serão o maior dos problemas.

— Não deixarei que você parta sozinho. Ao menos deixe que um membro da guarda pessoal do meu filho o acompanhe. Leve Qohor, o líder da guarda. É um homem extremamente habilidoso, um dos melhores que já vi no campo de batalha.

— Muito bem. Avise seu homem que partiremos imediatamente, não há tempo a perder. Aqui — disse o anão, entregando outro frasco ao sátrapa. Era um pouco maior, mas continha o mesmo óleo branco fluorescente que soprara vitalidade ao rapaz momentos antes. — Dê um gole por dia a ele. Nada mais, nada menos. Diga aos seus médicos para aplicarem sangrias constantes, assim como cataplasmas de limão quente misturado com flores brancas e ervas silvestres de valor curativo. Mantenha a janela aberta e o ar em circulação, e não deixe a luz da candeia se apagar. Mantenha também um monge em constante prece ao Vigia e à Jardineira até eu voltar.

— Quanto tempo você irá demorar?

— Não sei. Talvez dias. Espere, reze, e não perca a fé. Se à manhã do quinto dia eu ainda não tiver retornado, envie suas tropas para a fortaleza. Diga ao seu homem para me encontrar nos portões da cidade em uma hora, com cavalos selados e prontos para partir.

O anão se levantou para ir embora, dirigindo uma última prece silenciosa ao garoto. Quando se virou, seu pai o segurou pelo braço.

— Druida… Salve o meu filho…

— Salvarei, meu senhor. Não se preocupe.